— Gordinho, acorda.
— O que foi?
— Seu pai…
Este era um assunto muito delicado para o Lucas. Depois que a mãe foi diagnosticada as brigas haviam se tornado mais frequentes com o pai, e eu não gostaria de estar no meio desta. Na verdade, quando atendi o telefone, ele parecia estar bem bravo, e somente suavizou a voz pois era eu. Sempre achei estranho isso, mas o pai dele sempre pareceu gostar mais de mim do que do próprio filho, então não foi surpresa ouvir:
‘‘— Alice, querida, que surpresa. O que faz esta hora na casa do Lucas? Ele se embebedou novamente?
— Não, não senhor. Eu resolvi passar a noite aqui, só isto.
— Ah bom, e aonde ele se encontra?
— Dormindo, mas eu posso acordá-lo se o senhor quiser.
— Sim, sim. Faça isso, minha filha.”
— O que ele quer?
— Não sei gordinho, ele não disse.
— Tudo bem, me dá aqui.
Ele agarrou o telefone como quem fosse quebrá-lo, eu pude ver a raiva em seus olhos. Sempre me perguntei o que havia levado os dois a se odiarem tanto, até o dia em que Lucas me disse:
‘‘— É a pressão, sabe? Ele quer que eu seja ele, e eu nunca vou ser. Eu nunca vou ser o filhinho perfeitinho que não comete erros, eu sou humano porra!”
Eu pude ouvir alguns pedaços da cama onde eu estava deitada, encolhida. Não sei por que mas senti medo. Senti medo por ele, por mim. Como se o pai dele fosse capaz de entrar pela porta e assassinar nós dois, o que era uma ideia estúpida, mas parecia fazer sentido.
‘‘— Ela está chamando por ti.
— Eu não posso ver ela hoje, que droga.
— Eu realmente espero que ela não lembre mais de você. Espero que você seja uma das primeiras coisas que ela comece a esquecer quando na doença se agravar.
— E eu espero que seja você, que nunca foi bom para ela!
— Eu? Eu nunca fui bom? Tratei sua mãe como uma rainha, enquanto você só a dava fios brancos de preocupação.
— Eu quero falar com ela.
— Não, não permito.”
Eles gritavam ao telefone, eu realmente não queria escutar, mas era impossível. Imagino como ela se sentia, deveria ser estranho ver dois amores diferentes brigando, não só por eles, mas por ela também. Imagino o quanto a pobrezinha já não chorou e suplicou.
‘‘— Alô? Oi mãezinha, como você está?
[…]
— Que bom! Fico muito feliz, mas mãezinha preciso te dizer uma coisa…
[…]
— É, não vou poder ir aí. Se estou acompanhado? Ãhn, sim estou.
[…]
— É a Alice mãe.”
Pude ouvir o gritinho de animação que ela deu. Acho que no fundo todos sempre quiseram nós dois juntos, acho que no fundo sempre foi para ser.
‘‘— Tudo bem mãe, prometo cuidar bem dela se a senhora se cuidar bem também ok?
[…]
— Mãe, eu te amo. Desculpa.”
Ele entrou no quarto com uma cara totalmente diferente. Ainda possuía a típica raiva no olhar, porém havia tristeza, receio de algo.
— Por que você está encolhida, porquinha?
— Medo.
— De quê?
— Do futuro.
— Hm, entendo. Vamos sair?
— Vamos comer? Eu tô morta de fome.
— Claro, eu vou me arrumar e você fica comendo, pode ser?
— Ei, hum, eu não tenho roupa.
— Mas nós vamos ao parque, andar em montanhas russas e tudo o mais.
— Ainda assim não tenho roupa. Esse vestido não dá, gordinho!
— Bom tem um short teu que tá jogado no fundo do armário, e você pode pegar uma das minhas camisas emprestadas. Menos a azul, eu odeio a azul.
— Ok.
Mas quem disse que eu não pegaria a azul? Eu era simplesmente e completamente apaixonada por aquela camisa, e ele ficava tão bonito nela. Realmente ressaltava a cor dos seus olhos. […] Quando ele finalmente apareceu e me viu usando Oxfords, o short mais curto do mundo — que eu deveria ter deixado na casa dele há uns dois anos — e a camisa que mais parecia camisola, ele apenas sorriu e disse:
— Quem diria que eu algum dia iria gostar dessa camisa em alguém? […] Camila Reis